“Não se pode competir com preços artificialmente tão baixos”, diz líder industrial sobre avalanche de pneus da China
No RS, uma fábrica com 1,3 mil funcionários tem paralisado produção e chega a ter risco de fechar
Informação de impacto para o Rio Grande do Sul, o risco de fechamento da fábrica da Prometeon em Gravataí se deve a um problema nacional das indústrias de pneus. Além do tarifaço dos Estados Unidos, mercado importante, enfrentam uma avalanche de importados da China e de outros países asiáticos. Segundo o setor, há dumping, quando se vende abaixo do preço de custo para desestabilizar os produtores locais. O programa Acerto de Contas, da Rádio Gaúcha, entrevistou o presidente da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), Rodrigo Navarro.
Esta dificuldade é recente?
Vem acontecendo há alguns anos. Em 2019, o mercado de reposição foi abastecido 70% por produtos fabricados no país e 30% de importados. Hoje, temos 70% desse mercado dominado por produtos importados e apenas 30% da produção nacional. Tem problemas de dumping, reciclagem e destinação. Todos os anos, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) indica metas e, desde 2011, não teve um ano em que os importadores as atingiram. Acumulam 500 mil toneladas de dívida ambiental. Tem custo recolher esses pneus e destiná-los adequadamente, mas está na lei e todo mundo tem que cumprir.
Protecionismo ou defesa comercial?
Ninguém é contra produto importado. É normal em qualquer setor ter uma complementação. Uma coisa é ser 5% ou 10% mais competitivo, mas encontramos diferença de preço de 500%, 600%. Não é competitividade nem aqui, nem, literalmente, na China. Não se pode competir com preços artificialmente tão baixos. É questão de soberania nacional. A deterioração da indústria leva a essa paralisação de linhas, férias coletivas e até fechamento de fábricas.

União Europeia implementou sobretaxas a pneus asiáticos.
Sim, alíquota de 45,3% sobre pneus importados. Estados Unidos estabeleceram 78% de tarifa para pneus da China. México aumentou para 35%. E aqui no Brasil ainda estamos com 25% para pneus de passeio, 16% para carga e 14% para motos. Produtos que se deparam com barreiras tarifárias nas outras regiões vêm tudo para cá.
Mas o que se agravou de 2019 para cá?
Após a pandemia, a Lei de Liberdade Econômica tirou o preço internacional de referência, que ajudava a ficar de olho caso viesse uma importação com preço muito abaixo do Exterior. E, em 2023, o governo zerou o imposto de importação sobre pneus de caminhão. É preciso olhar as compras públicas. Assim como o governo lançou programas para comprar caminhões, ônibus, carros para taxistas e aplicativos, deveria estimular a compra de produtos aqui fabricados. Hoje compra-se por preço. São produtos que, muitas vezes, não atendem às normas ambientais. Ora, um país que sediou a COP30, com matriz energética tão renovável quanto a nossa, não pode admitir isso.
Como está a negociação com o governo federal, considerando que é difícil se indispor com China agora que ambos brigam com Estados Unidos? Além disso, elevaria preços às vésperas da eleição.
A urgência é importante e passa por equalização do imposto de importação a níveis internacionais para não haver o desvio de fluxo de comércio. Pode parecer medida impopular, mas você está protegendo indústria, empregos e renda. Mas vamos trabalhar com horizonte até o final do ano. E tem outra discussão que é o licenciamento não automático dessas importações, com tempo para analisar peso, valor e cumprimento de normas técnicas e ambientais.
Assista a entrevista completa no link: https://www.youtube.com/watch?v=F3oaaX3rHqw&t=243s


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